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viernes, 3 de agosto de 2012

sobrevivência existencialista resenha do filme "O Cavalo de Turim"

Filme: O Cavalo de Turim
Género: Drama Duração: 146 min. Realização; Béla Tarr Com: Erika Bák, Janos Derzsi, Mihaly Komos
Cinema: El Corte Inglés
Enquanto os espectadores esperam ver a história sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e a imagem do cavalo de Turim violentamente espancado, que o levou à loucura, este episódio é usado apenas como um ponto de partida para se acompanhar o percurso do "outro lado do espelho", mostrando-nos a vida do carroceiro e da sua filha, donos do cavalo que se tornou mundialmente conhecido graças ao efeito que produziu na mente do pensador.
Para a imagem da absoluta miséria que estão a passar ser ainda mais grave, a sua única comida consiste apenas numa única batata cozida que comem por dia, temperada com um pouco de sal, sendo a sua bebida água no caso da menina e aguardente no caso do pai. Um pormenor que pareceu realmente estranho é o facto de os dois pelarem a batata antes de a comerem, quando é sabido que em situações de estrema fome o ser humano não faz questão de goisto nem de sofisticação. Há que notar também que o pai e a filha nem sequer acabam de comer a sua batata, o que ainda sublinha a monotonia e a escassez da sua alimentação, perante a qual o seu organismo reage com rejeiç\ao e resignação.

O pai, a filha e o cavalo, os três parecem ser personagens trágicas, mergulhadas no seu mundo sem
 saída:  O carroceiro é um homem rude e duro, bêbado e solitário, cuja única diversão é olhar pela janela. A menina é uma jovem solitária, que não tem amigas nem namorado, apenas sabe ler, não tem nenhuma diversão nem perspectiva no futuro. O cavalo, velho, doente, quase abandonado a si mesmo, parece ser o único entre os três que tem alguma força, ajudando o carroceiiro e a filha a debaterem-se com a sua luta diária para a sobrevivência.
A situação do limite do absurdo agrava-se ainda mais quando, após uma vinda inesperada de ciganos, o seu poço seca. O carroceiro, a sua filha e o cavalo pretendem fugir à sua desgraça, mas por causa da doença e da fraqueza do cavalo, ficam presos no círculo vicioso do absurdo, da miséria, da solidão e da ausência absoluta de qualquer sentido. A sua vida é acompanhada pormenorizadamente durante seis dias, sendo o sexto provavelmente o último, que poria o fim à sua agonia.
Apesar da excelente técnica das imagens a preto e branco que acentuam ainda mais a visão pessimista e niilista do mundo, a lentidão com a qual se desenrola a acção cansa o espectador e obriga-o a esforçar-se a não abandonar o cinema antes do fim. A música que parece apropriada para um funeral, provavelmente tem por finalidade enfatizar a desumanização e a desvalorização da vida, porém.
Por vezes monótono, outras vezes forõsamente intelectual, este filme torna uma possibilidade de reflexão existencial e existencialista numa série de repetições de palavras e comportamentos sem qualquer sentido, fazendo com que no fim do filme o espectador sinta ao mesmo tempo um enorme alívio, por  a obra ter terminado, e por outro tem-se a ideia de uma visão demasiado apocalíptica do mundo e do destino dos indivíduos.
Muitos dos espectadores devem ter sido induzidos a ver o filme por causa dos sinopses traiõeiros, que prometiam a história da importância do episódio do cavalo de Turim na vida do filósofo alemão, e não esperaram este desenvolvimento da acç\ao.
Partindo-se de uma ideia atraente de contar uma versão deste acontecimento visto de uma perspectiva diferente, não se chegou ao fim desejado, parecendo que o próprio argumentista não sabia como finalizar nem como desenredar-se do próprio filme.