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martes, 7 de agosto de 2012

Os Livros que Devoraram o Meu Pai de Afonso Cruz

Cruz, Afonso (2012), Os Livros que devoraram o meu pai, A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim, Editorial Caminho, Lisboa,126 pp.
Quando se pretende qualificar alguém como um leitor ávido, é geralmente usada a expressão: “ele devora livros”. Como, porém sugere o título desta obra, os livros são os responsáveis principais pela morte de um dos seus leitores mais apaixonados: um funcionário público que preenche a monotonia do seu dia-a-dia numa repartição de finanças. Há que prestar atenção ao nome e apelido da personagem, uma vez que Vivaldo tem a ver com o verbo “viver” e “Bonfim” é a justaposição do adjectivo “bom” e do substantivo “fim”. Daqui pode-se deduzir que o senhor viveu para os livros que lhe deram o bom fim, a oportunidade de morrer entre eles.
 Após a sua morte, consequência de um enfarte (e não da leitura de A Ilha do Dr. Maureu de H. G. Wells), o seu filho Elias, no dia em que faz doze anos, recebe da avó uma prenda muito especial: a chave do sótão em que o seu pai guardava os seus livros preferidos. Lendo todas as obras clássicas que fazem parte do cânone europeu (geralmente o ocidental, com a excepção dos autores russos, tais como Dostoiévski, Gorki, Gogol e outros), o protagonista e ao mesmo tempo narrador da história procura conhecer melhor o seu pai e saber mais sobre ele. Dialogando com as personagens, viajando na sua imaginação a outras terras, esquecendo-se da hora do jantar, o menino fica absolutamente absorvido pelo mágico e bonito mundo dos livros, descobrindo pontos de vista e modos de pensar diferentes, enriquecendo o seu vocabulário e o seu conhecimento.
Paralelamente com as suas aventuras de leitor ávido e de “pessoa determinada” como se qualifica o próprio Elias, são-nos narrados alguns dos episódios da sua vida real: as experiências da sua escola, das relações familiares, a amizade com Bombo (um rapazinho obeso de cabelo oleoso, escarnecido por todos na turma, mas que sabe muito sobre a cultura e a sabedoria chinesas, sem ser pretensioso e sem dar demasiado nas vistas), o seu primeiro amor por Beatriz, uma menina de cabelos lisos, olhos castanhos e o “sorriso escrito à mão”, que por sua vez está interessada no melhor amigo do protagonista. Pelo pouco que as personagens da vida real são descritas e abordadas no livro, vê-se que a avó é apenas o pretexto para o menino chegar ao sótão dos livros, alguém que lhe faz o lanche composto por bolinhos secos e um copo de leite, sem aprofundar qualquer relação com o neto. A mãe é uma pessoa rigorosa que castiga o filho, proíbe-lhe as leituras, preocupa-se com a quantidade excessiva dos livros que lê, sem mostrar-lhe carinho, sem dedicar-lhe atenção, sem partilhar um único momento bonito com ele. Bombo (chamado assim por causa do seu aspecto físico e peso excessivo) parece ser o único amigo dele, com quem partilha conhecimentos e confidências até descobrir que os dois estão apaixonados pela mesma colega da turma. O menino  Elias Bonfim deve sentir-se muito só, e por isso entre outras razões, refugia-se na leitura, onde além dos seus amigos imaginários encontrará também um cão imaginário. Mr. Prendick, que lhe faz companhia nas suas aventuras literárias.
A idade decisiva para Elias Bonfim começar a ler tanto são os doze anos, o momento em que o jovem se encontra entre a infância e a adolescência e quando lhe surgem as primeiras dúvidas importantes sobre o bem e o mal, o certo e o errado etc. Para entendermos melhor alguns dos comportamentos do adolescente Elias, deveremos chamar a atenção para um pormenor que nos pareceu importante: o protagonista dialoga mais com o Dr. Maureu, que pretende transformar os animais em homens, com o Mr. Hyde e com o Raskolnikov, protagonista do célebre romance de Dostoiévski. Todos estes heróis literários são de certa forma divididos: o primeiro entre o seu desejo e a realidade, o segundo entre as duas personalidades: a do dócil, pacífico e bom Dr. Jakyll e a do cruel, maníaco e perturbado Mr. Hyde e o terceiro entre o crime que cometeu, o seu castigo, e a redenção. Para evidenciar ainda mais a divisão entre o justo e o injusto, entre o correcto e o que não se deveria fazer, Dostoiévski deu ao seu herói um apelido simbólico, derivado do substantivo raskol, que significa “cisma” e que, na leitura de Afonso Cruz, o transformará num “monstro”, criminoso implacável e assassino banal que mata por prazer e para aliviar a consciência. Vendo a personagem de Dostoiévski tão deformada e denegrida aos olhos do autor e do narrador deste novo romance, devemo-nos perguntar sobre a liberdade do leitor de interpretar um livro ou os seus protagonistas, recordando que o nem o leitor nem o crítico têm direito de basear a sua visão da obra naquilo que não está escrito pelo próprio autor. Por mais intertextualidade e o diálogo da literatura com a vida real que se pretendam mostrar nesta obra, deveríamos salientar uma determinada ironia que Cruz usa para se referir a um escritor considerado por muitos críticos como um maiores autores russos de sempre: “Dostoievski, Dostoievski… O que é que ele sabe da vida, esse Dostoiévski? Tudo se passou como eu lhe estou a contar, o resto é literatura” (p.90). Este comentário poderia interpretar-se tanto como a ideia de que não há autores nem textos intocáveis, como também pode parecer um desejo de “ajustar as contas” com o autor de que não se gostou e com a obra que não se entendeu de forma adequada. Em relação às referências culturais russas, consideramos interessante que Afonso Cruz tenha escrito duas frases nesta língua “Уйди, меленький человек! (Vai-te embora homenzinho!) e Уйди, ты дурак! (Vai-te embora, tolo!), o que enriqueceria os conhecimentos culturais do leitor se tivesse uma nota de rodapé com a devida tradução. Para descrever o descontentamento e a fúria de uma das personagens de Dostoiévski, Cruz refere que Elias pretendia “desviar os insultos em cirílico” (p.87). Sabendo que o cirílico é um alfabeto e não uma língua, é difícil “traduzir” esta imagem em gritos, o que, por sua vez na parte gráfica do livro (com letras grandes e em negrito) pode passar como a transmissão da ideia pretendida: de uma raiva descontrolada numa língua estrangeira.
Com todas as personagens com que se encontra Elias Bonfim aprenderá algo sobre os temas importantes para a existência humana, mas pelo que nos pareceu, aplicará mal os seus conhecimentos na realidade e com as pessoas que o rodeiam: mesmo que pense que o seu amigo Bombo é gordo, feio e que não merece a atenção de Beatriz, menti-lo-á para “não magoá-lo” ou para “não desiludi-lo”, porque segundo acredita, fazer uma coisa má para atingir um objectivo bom é considerado justificável. Esta relação de falta de sinceridade e lealdade por parte de Elias Bonfim com o seu amigo Bombo continuará a desenvolver-se até ao ponto de Beatriz ignorar o protagonista do romance e dar um beijo na boca ao seu amigo. Quando descreve o seu colega da escola, Elias fala apenas na gordura e no cabelo oleoso do Bombo, e também nas numerosas histórias relacionadas com o rico mundo da civilização chinesa, mas  quase sempre com um tom depreciativo. Por outro lado, o rapazinho obeso está genuinamente apaixonado pela cultura chinesa e por Beatriz, tendo adoptado algumas características dos sábios que lê e conhece, nomeadamente de Lao Tsé: a calma, a tranquilidade com a qual aceitava todos os comentários desagradáveis dos seus colegas da turma e alguma sabedoria. Bombo, pois, é o único que percebe que Beatriz está solitária, porque, embora esteja sempre rodeada de muitas pessoas, a menina não se sentia acompanhada. Ao revelar esta observação ao seu melhor amigo Elias, Bombo é interrompido com um comentário superficial e aparentemente brincalhão: “Não digas disparates, ó Bombo”(p. 52).
Não podendo suportar que o seu primeiro amor tenha preferido o amigo, Elias considera o beijo entre Beatriz e Bombo uma experiência ultrajante, o que o levará a humilhá-lo em público na presença da menina, magoando-o onde mais lhe dói: ridicularizando a sua diabetes e a necessidade de injectar insulina na barriga com palavras realmente cruéis referindo-se às agulhas que devia espetar na barriga. Esta atitude pouco generosa causou a primeira e a última revolta do rapazinho doente e obeso: comeu demasiados pasteis de anta, não tomou a sua dose de insulina e morreu. Ao longo do livro vemos o amigo do protagonista como uma espécie do seu alter ego: são da mesma idade, gostam da mesma menina, os dois ficam absorvidos pela leitura e pelo desejo de saber mais (apenas que Elias se limita à literatura ocidental e Bombo à oriental). Bombo é feio e não se enquadra no ambiente dos seus colegas de turma, sobre a beleza do protagonista não se diz nada, mas pela sua atitude convencida, pode deduzir-se que deveria ser mais bonito que ele. Enquanto Elias é um pouco falso com o seu amigo, Bombo é puro, não guarda rancor a ninguém e aceita todo o mal com a sua sabedoria silenciosa, com o qual estas duas personagens se complementam e parecem ser o lado iluminado e o escuro de cada pessoa.
Embora existam alguns indícios dos remorsos de Elias (“o meu número inqualificável” (p.121), “quando penso no Bombo choro”(p,125), “é a primeira pessoa que vi morta e isso impressionou-me” (p.123), não se põe perante o leitor qualquer sentimento de culpa, de pecado ou de dilema moral de Elias, por ter sido o responsável indirecto pela morte do seu amigo. Apenas na sua velhice, o protagonista da obra constatará que Bombo era seu amigo e esta frase será terminada com um ponto de exclamação, e afirmará com um tom de voz neutro que “na altura é difícil saber fazer as coisas certas”(p.125). Nesta última frase afirmativa vê-se mais uma tentativa de se auto-justificar do que expressa a intensidade da dor pela perda do amigo da infância.
A leitura deste romance coloca várias questões importantes: a (im)possibilidade de dialogar com os livros considerados canónicos, a intertextualidade e os seus limites, o crescimento da pessoa, o conhecimento do bem e do mal, a utilidade da literatura. Lendo Os Livros que Devoraram o Meu Pai podemos interrogar-nos também acerca dos seguintes problemas: se e por que razão se devem ler os clássicos? Existe uma idade apropriada para se lerem os livros “difíceis”? Que efeito tem a literatura nos seus leitores. Ainda que a ideia inicial (a de fomentar a leitura dos autores mundialmente conhecidos entre o público infanto-juvenil) seja de louvar, o que se nos impõe como dúvida é se realmente a literatura tem o carácter “salvífico” e se a cultura realmente cultiva o espírito de quem a consome. Pelo que se mostrou na personagem de Vivaldo, a leitura serve para enriquecer o dia-a-dia monótono num emprego de que não se deve gostar, na personagem do seu filho, a literatura, que deveria ser uma viagem mágica,  não é mais do que uma recolha de citações e referências aos autores conhecidos, que eleva demasiado a sua auto-estima, desvalorizando o que realmente há de bom nos livros, nas personagens e nas mensagens que transmitem. Por último, e a aproximação do Bombo com o mundo chinês através da leitura, enriqueceu-o tanto que o fez “sentir-se um chinês”, o que mostrou pela sua humildade, serenidade, mesmo quando perde e tem vontade de “chorar por dentro”.
Partindo de um tema bonito, o conhecimento do pai através dos seus livros e das histórias de que a sua vida era feita, promovendo a leitura dos clássicos entre crianças e adolescentes, este romance, porém peca algumas vezes no seu estilo (“livros, livros e mais livros”(p.12), (“humilhar com palavras humilhantes”) , “um sótão inteiro (e mais muito mais” (p. 126.) e não aprofunda o incentivo e desenvolvimento de valores mais importantes tais como o cultivo de uma boa relação familiar, a amizade, a preocupação com a felicidade dos outros, a aceitação de uma recusa, o arrependimento, a redenção e outros que parecem ser tocados, mas nãoaprofundados.