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sábado, 11 de agosto de 2012

fronteiras perdidas José Eduardo Agualusa

AGUALUSA, José Eduardo, (2002) Fronteiras Perdidas, Contos para Viajar,  Publicações Dom Quixote, Lisboa, 124 pp.
 Quem conhece a prosa de José Eduardo Agualusa, sabe que nas suas obras pode esperar que se debatam as questões da fronteira, da identidade, de alguns problemas do homem angolano contemporâneo tais como "de que forma o seu país é visto no exterior", "onde está o seu lugar," " o que significa hoje em dia ser angolano" e neste sentido as Fronteiras Perdidas não representam nenhuma excepção.
Quer que se trate de uma viagem de jipe, de ónibus no Brasil, de avião, de comboio ou de um simples elevador, o que une estas desassete  narrativas breves é de facto a constante procura de um "lugar de morança", de um ponto de referência, de uma identidade, de um espaço fixo no mundo cada vez mais globalizado em que as noções da fronteira do centro, da margem e da periferia são sempre mais abaladas e menos reconhecíveis. A identidade torna-se cada vez mais traiçoeira e perde o seu significado, ainda que se trate de um nome e apelido à partida inconfundível.
Nas narrativas de Agualusa, tal é o caso de Plácido Domingo, para o qual todos os leitores poderiam assegurar que se trata da grande estrela de ópera, quando ao longo do conto se descobre que o seu protagonista é um antigo capitão do exército português, que apóa a Revolução de Abril em Luanda "foi levado em ombros por uma multidão eufórica". A mesma insignificância do nome e da identidade revê-se no caso da raquel, que sempre foi chamada de Fronteiras Perdidas, para o narrador do conto pôr em questão o seu verdadeiro nome, explicando que nalgumas tradições existe um nome público e ooutro íntimo, usado apenas em cerimónias restritas.
Ao longo da leitura desta obra confirma-se que "não há mais um lugar de origem", que existem "outras fronteiras", que até o sonho como uma das experiências humanas mais íntimas é apenas um sítio de passagem e que é possível viajar pelas memórias, pelas cidades reais como Luanda, pela fantasia e pelo cinema, mas que a existência de uma "casa" é um assunto muito vago e frágil. Mesmo quando uma casa física existe, o importante é como é que nos sentimos nela, o que nos mostra o caso de Jimmy waters, que regressou à África, mas que se sente desvinculado da terra das suas origens porque já adoptou um pouco da mentalidade e da cultura ocidentais.
Nestas narrativas está sempre latente a questão do "eu" e do "Outro", de "nós" e "eles" e que sempre existem alguns estereótipos e preconceitos culturais, mesmo entre os próprios africanos ou descendentes de africanos o que melhor se expressa na afirmação que "os pretos não sabem comer langosta".
Entre os tópicos abordados nesta colectânea destacaríamos a insegurança humana e a sua humilhação perante o riso dos outros, elaborada no conto "o perigo do riso", a necessidade de se acreditar numa força superior, como é o caso do "Taxista de Jesus", a alienação humana no meio urbano e o afastamento do homem contemporâneo da natureza e das suas raízes, expressos nas palavras da avó no conto "Por que é tão importante ver as estrelas".
Com os seus títulos bem escolhidos " A volta ao mundo em elevador", " A noite em que prenderam o Pai Natal", " Carro Malhado", "A pobre pintora negra que era um branco rico", com o seu estilo simples, mas cativante, com uma ligeira dose de humor e linguagem coloquial, estes contos convidam o leitor a deslocar-se juntamente com o narrador e a viajar à procura de diversão, algum ensinamento e das imagens de uma África conhecida e misteriosa ao mesmo tempo, de uma África próxima e longínqua que habita detrás das fronteiras perdidas e frágeis do nosso mundo contemporâneo.