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miércoles, 1 de agosto de 2012

Pensageiro Frequente de Mia Couto

Quem diz "revista de bordo", costuma ter a ideia das publicações que abundam de fotografias bonitas e informação estereotipada sobre as belezas e monumentos turísticos de um país e as razões pelas quais supostamente não visitá-lo seria um pecado imperdoável. Quem diz " Mia Couto", além de novas e sempre divertidas palavras, espera um livro que nos dá pena deixar, porque a leitura nos absorve e leva a aventuras e vidas incríveis.  Juntando, porém o nome deste escritor com o conceito de uma revista de leitura ligeira como passatempo no avião, obtemos o "Pensageiro Frequente", um conjunto de vintiquatro relatos breves sobre Moçambique, a sua realidade, as terras, as gentes, os costumes e crenças, o moderno e o ancestral neste país africano. 
Com apenas um neologismo, que dá o título à obra, Mia Couto, porém, consegue captar a atenção dos passageiros e torná-los em leitores ávidos que ao mesmo tempo são ansiosos por ver o fim de cada relato e não gostam da ideia de que este voo imaginário termine. 
tendo colaborado com a companhia aérea nacional de Moçambique, o reconhecido escritor chegou  à ideia de revestir a típica informação turística sobre uma localidade num género educativo e divertido simultaneamente, criando pequenas histórias em redor das suas próprias experiências como passageiro frequente nos voos desta empresa.
Neste conjunto de artigos somos introduzidos no mundo de fenómenos que nos são familiares e estranhos, que nos atraem e repelem: o  bairrismo, que se reflecte nos jogos de futebol, a perseguição de um sonho, mesmo que se tenha que ser "fintado por um verso", a bruxaria e crenças nos poderes paranormais, que às vezes servem apenas como pretexto para uma boa conversa, a denúncia do racismo em Moçambique através da pergunta "como é que uma cidade pode ser grande se nela não cabe o amor de dois jovens inocentes?", o passado colonial da cidade de Lourenço Marques, a construção da sua nova identidade moçambicana, encarnada no nome de Maputo e a  tendência de ser chamada de um nome coloquial da "cidade onde se vive como os brancos". 
Estes são apenas alguns dos temas que se abordam no livro, misturando a imaginação e a capacidade quase fotográfica de captar o detalhe.
Os breves ensaios por momentos provocam riso,outras enchem a imaginação dos leitores de colorido local africano, de cheiros, sons, nomes de plantas e animais, outras vezes fazem com que o simples passageiro que procura a sua comodidade e algumas horas de tranquilidade a bordo se torne em "pensageiro" e que reflicta sobre alguns dos probleams que persistem na realidade moçambicana.
Escrita numa linguagem simples, com muito boas escolhas estilísticas, a obra de Mia Couto não apenas convida a visitar e conhecer Moçambique, como também estimula a imaginação, fazendo com que cada um dos participantes nesta viagem literária invente e crie a sua versão deste país.