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domingo, 26 de agosto de 2012

o amor, a diferença e os preconceitos em "O Gato malhado e a Andorinha Sinhá Uma História de Amor"

AMADO, Jorge (1976) O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá Uma História de Amor,  Editora Récord, Salvador, 59 pp.
Escrita em 1948 como prenda de aniversário do seu filho João Jorge, e publicada quase trinta anos depois, esta obra é uma verdadeira pérola da literatura infanto-juvenil, porque atrai o leitor não apenas com as suas belíssimas ilustrações, mas com a clareza do seu estilo e com a linguegem próxima do povo baiano, com a sua história original e com os temas sérios que toca. Nesta narração, que tem elementos do conto, da fábula e do romance para crianças, o assunto principal é de facto o amor, nas suas diversas variantes (desde a relação convencional do casal de patos, monógamos por força", a relaç\ao aparentemente harmoniosa e sem grandes perturbações dos pais da Andorinha, da poligamiaabundante em ostentação do poder entre o Galo Don juan de Rhode island e as suas numerosas galinhas, sendo a Carijó a sua predilecta, o casamento dos pombos "monógamos por convicção" (embora a sua monogamia seja seriamente posta em causa pelos habitantes do parque quando nasce um ser estranho que fala a língua dos homens e que é chamado de Pombogaio), as numerosas aventuras do Reverendo Papagaio, a triste ilusão da Goiabeira pelo Gato e a profunda e sincera paixão entre o Gato malhado e a Andorinha Sinhá. 
Este romance infanto-juvenil toca também nos assuntos mais sérios como a política (destacada na afirmação de que o mundo necessita de uma "revoluçãozinha" para mudar e ser melhor, tal como no poema da autoria de Estêvão de Escuna que inspirou Jorge Amado, e que apregoa a ideia de que o mundo "só vai prestar para nele se viver" quando um Gato Maltês e uma andorinha chegarem a casar e voar juntos), a tolerância, a aceitação de si próprio com os seus defeitos e virtudes (ilustrada na tentativa fracassada da Goiabeira de seduzir o Gato tornando-se mais bela para ele), o dever de aceitar o Outro e a diferença, o preconceito e os julgamentos precipitados sobre os outros pelas aparências e não pelo que a pessoa tem no fundo.
Nesta obra há também elementos de crítica social, de denúncia das injustiças e convenções estabelecidas, reflexão sobre as leis da natureza e a ordem conhecida das coisas, denúncia da hipocrisia e falsidade, a condena da bisbilhotice e da mentalidade fechada do meio pequeno, há uma crítica irónica das instituições (o casamento e a família por um lado e a Academia e a Igreja por outro).
Além de todas estas questões que levanta O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá pretende desenvolver no leitor o espírito crítico e bom gosto pela leitura, ensina-o a distinguir algumas bases de narratologia e estrutura de uma obra literária, debruça-se sobre a originalidade e o plágio, introduz elementos de versificação (no caso do soneto que o Gato escreve à Andorinha).
O livro fala discretamente sobre a sexualidade, o crescimento e desenvolvimento pessoal, sobre a confiança e lealdade, baseadas no conhecimento mútuo dos que se amam, da posição do indivíduo dentro da comunidade, dos temores, medos e obstáculos que se interpõem na realização feliz de um relacionamento amoroso.
Usando propositadamente alguns dos estereótipos e lugares comuns  na literatura (o percurso e as fases do romance e da paixão dos protagonistas comparada com cada uma das estações do ano, a estrutura parecida com a de um conto de fadas tradicional, o final infeliz de uma história de amor, selado com uma lágrima e uma pétala de rosa da cor do sangue), jorge Amado subverte-os e inverte-os dando um toque original à sua narração.
Esta alegoria da sociedade humana e dos comportamentos dos seus membros, encarnada nas personagens dos animais do parque é uma obra que não se dedica exclusivamente ao público infantil e juvenil, fazendo com que cada leitor reflicta sobre o seu conteúdo mais do que uma vez, porque oferece vários níveis de leitura e de interpretação.