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domingo, 19 de agosto de 2012

o perigo da leitura feminina

BOLLMAN, Stefan (2005), Mulheres que Lêem são Perigosas, Quetzal Editora, lisboa, 148 pp.
"Pois, o amor vive precisamente de palavras, passa a ser escrito com maiúscula, o Amor, o Medo, a Idade, a Morte na teia da linguagem e contamos aquilo que necessitamos, e é de bom grado que que nela nos deixamos enredar", são as palavras com as que Elke Heidenreich no prefácio a esta obra, tentando justificar a necessidade e o direito das mulheres de escreverem e lerem, depraticarem precisamente as actividades pelas que são consideradas perigosas no mundo dominado pelo poder masculino.
Diferentemente do livro deste mesmo autor que promove a escrita feminina, este não apresennta ao leitor as mulheres como seres humanos reais, mas como representações artísticas na pintura e na fotografia ao longo dos séculos. Nos quadros e imagens reunem-se todos os preconceitos sobre a condição da mulher na história (desde a fraqueza da sua razão, a corrupção do seu comportamento virtuoso pela leitura, o desenvolvimento das fantasias sexuais e amorosas), como também todos os reflexos da postura , da curiosidade intelectual, da fé, da seriedade e do "perigo " que se esconde em pensar e questionar o mundo que rodeia a população feminina.
A razão principal pela quel a leitura feita por mulheres assusta os homens que as julgam e desprezam, segundo o autor é: " Quem lê, fica a reflectir, quem reflecte, forma uma opinião, quem tem uma opinião, pode dissidir, quem se torna dissidente, passa a ser inimigo. É  tão simples como isso" (p.13). Esta afirmação explica  a tendência histórica e cultural em muitas sociedades de entender-se a educação feminina como um obstáculo sério para a sua obediência e dependência do homem, e para os seus papéis de noiva, esposa, mãe ou dona de casa. Como livros particularmente perigosos para a psique, a imaginação e o mundo emocional das mulheres, sempre foram consideradas as obras de temática amorosa ou erótica e por isso não é de estranhar que muitos dos pintores tenham imaginado a mulher leitora como nua ou semi-despida,  Em defesa do direito das mulheres de se interessarem pela temática amorosa das suas leituras, Elke Heidenreich  sublinha que "o amor- admito-o com um suspiro- é muito, muito mais forte que a literatura, porém, o amor na literatura é bem mais belo do que na própria vida. Ao menos de vez em quando permite iludir-nos" (p.14). 
Enquanto para as mulheres os sentimentos e a leitura são inseparáveis, inspirando-lhes respeito e amor pelos homens que se dedicam a esta actividade, a leitura feminina é sempre vista com um determinado receio (como se tudo o que lessem se resumisse a cartas dos pretendentes secretos ou a livros imorais).
Stefan Bollman, porém, neste livro apresenta uma visão mais ampla da leitura feita por mulheres, quer que se trate de um acto íntimo e isolado, ou de momentos de prazer partilhado em grupo. De acordo com os títulos de cada capítulo, as mulheres podem ser leitoras abençoadas, tratando-se de religiosas, santas ou aquelas que se dedicam a ler com atenção a Bíblia,  aquelas que passam horas de deleite a ler, as que estão à procura de si próprias, afirmando a sua identidade intelectual.
Entre os pintores que captaram os momentos e emoções das mulheres com os livros nas mãos encontram-se nomes como Miguel Ângelo, Rembrandt, François Boncher,  Henri Matisse, edward Hoper e das fotografias destaca-se a célebre marylin a ler Ulisses de Eve Arnold.
Independentemente de a intenção dos artistas que representaram as mulheres nas suas obras ser a de condená-las ou a de sublinhar o desejo da afirmação feminina no campo da leitura, todas as pinturas e fotografias que se vêem nesta colectânea são verdadeiras joias estéticas e o livro em si, com a grande capacidade analítica e a atenção que dedica aos pormenores, não é apenas um objecto obrigatório na biblioteca de qualquer amante da arte como representa uma apologia que o autor faz da luta das mulheres por conquistarem o fascinante mundo da leitura e das letras.