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martes, 7 de agosto de 2012

Perspectiva filosófica do amor

Lancelin Aude, Lemonnier, Marie (2010) Os Filósofos e o Amor Amar de Sócrates a Simone de Beauvoir, Prefácio de Eduardo Lourenço, Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, Lisboa, 269 pp.
Por mais estudada e abordada que seja ao longo da história, a temática amorosa parece nunca esgotar-se oferecendo sempre novas perspectivas de abordagem por parte dos poetas, pensadores, artistas, cientistas e filósofos. Os Filósofos e o Amor é uma tentativa de reunirem-se todas as ideias filosóficas mais importantes sobre este sentimento desde a Antiguidade clássica até à época contemporânea: desde Platão, pensador que mais tem glorificado e sublimado esta emoção complexa, até Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, com a sua visão bastante liberal da relação amorosa, que levantou muitas polémicas na sua época.
Esta obra analisa e acompanha o amor, desmembrando esta complexa e profunda emoção nas suas mais diversas componentes: desde a ideia divinizada, até ao acordo livre e voluntário entre duas pessoas debruçando-se em questões importantes do ponto de vista filosófico e imprescindíveis para a existência humana: o sagrado, a vontade, o dever, a moral e o moralismo, o instinto sexual, a culpa, o medo, a paixão, o bem, o mal, a existência ou não do amor absoluto, a loucura amorosa e outros tópicos interessantes, que nesta colectânea nunca se reduzem a lugares-comuns vazios e gastos pela teoria.
 “Esta mítica combustão da substância humana” (p.9) como Eduardo Lourenço denomina o amor é abordada de acordo com a experiência de vida e do pensamento filosófico de cada um dos autores que fazem parte deste conjunto de ensaios, implicando as reflexões sobre este assunto que foram escritas por autores que na sua vida privada e emocional podiam ser tímidos e educados nas famílias rigorosas e de certa forma fanáticas no sentido religioso, como é o caso de Sören Kierkegaard, moralistas e celibatários como foi Imanuel Kant, niilistas como Friedrich Nietcshe, ou amantes libertinos como Sartre. Obviamente que nem sempre a vida dos filósofos foi o único factor determinante na sua teoria sobre o sentimento amoroso, mas consideramos que neste caso é difícil dissolverem-se a esfera privada e a esfera da escrita de cada um dos autores.
Quer que nos escritos filosóficos destes pensadores se vise o desejo de perpetuar e absolutizar o amor, quer que se questione como uma mera ilusão ou ainda banalize e reduza apenas à pulsão sexual, o amor está presente, actual, vivo, debatido, sonhado, imaginado, vivido, rejeitado, ridicularizado, o que torna estes ensaios ainda mais atraentes para os seus leitores. O facto de se começar pelo idealismo de Platão e termine com uma espécie de profanação desta ideia por parte de Sartre e da sua amante dá a entender que ao longo dos tempos todas as “verdades absolutas”, instituições, normas morais e comportamentos desejáveis e aceitáveis iam mudando de forma, foram submetidos a diferentes tipos de provas e reflexões, mostrando uma determinada decadência e deterioração dos ideais, e por outro lado o constante desejo humano de os alcançar e afirmar na sua experiência e realidade concretas.
Nesta colectânea encontram o seu lugar também o imaginário mítico, a problemática do sagrado e do profano, a posição do indivíduo perante o Outro e a colectividade, a responsabilidade, o sacrifício e o egoísmo, o corpo e o espírito como duas entidades por vezes completamente opostas, outras vezes fundidas e flexíveis. O domínio e o controlo da emoção amorosa devida aos motivos interiores e íntimos de cada indivíduo ou condicionada por factores externos tais como a moral pública, Deus, conveniências sociais opõe se à sua livre expressão, discussão, partilha e outros sentimentos amplamente abordados neste livro. A procura do sentido da vida e das plena realização dos amantes através do amor é um dos tópicos que também são explicados nas abordagens dos filósofos, tal como o é a mais profunda desilusão do amor e da condição humana no geral. A perfeição espiritual, a força cósmica que dinamiza tudo no universo, loucura carnal, fonte de perdição, pacto de livre arbítrio,  elemento destrutivo  e muito mais, o amor é um tema que não se acaba com os discursos destes dez pensadores do Ocidente Europeu (Platão, Lucrécio,Michel Montaigne, Jean-Jacques Rousseau, Kant, Schopenhauer, Kierkegaard,Nietzcshe, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, sendo os últimos dois ajudados nas suas reflexões pelas suas respectivas amantes Hannah Arendt e Simone de Beuvauir).
Enquanto a expressão “meia laranja” que nalgumas línguas europeias ainda é usada para a pessoa amada complementar com o seu amante provém dos diálogos platónicos e da sua ideia do amor como a união absoluta de dois seres que se tornam um todo perfeito, este livro aborda também a ideia que a alienação amorosa é pior que a epidemia de peste que uma vez afectou a cidade de Atenas (Lucrécio), defende-se o ponto de vista que este sentimento não é mais que um “artifício contagioso” (Rousseau), que a união sexual é um “mal necessário” (Kant), pensa-se que o amor é “assassinado” e “força dos fracos” (Schopenhauer),  deseja-se o amor absoluto, tendo-se ao mesmo tempo um pavor a ele e à sua realização (o caso de Kierkegaard e a sua noiva), pensa-se que este sentimento é morto “a golpes de martelo” (Nietzcshe), uma luta cruel e a guerra dos sexos pelo seu domínio e a posse do Outro, o amor e o ódio podem ser considerados como “a base do conhecimento”, sempre em busca do “ser-perfeito-do-mundo# (Heidegger) ou pode ser uma liberdade absoluta sobretudo no campo sexual, não descurando, porém a lealdade e a sinceridade defendida por Beauvoir e >Sartre.
Pretendendo ser um compêndio panorâmico e cronológico do desenvolvimento das ideias sobre o amor, este livro peca por não tratar em absoluto a época medieval, sendo o amor neste período um dos temas preferidos dos teólogos, moralistas poetas e filósofos da Europa ocidental. Esta obra “salta” completamente a visão do amor entre a época da Antiguidade greco-romana e o Iluminismo, o que poderia ser um dos seus pontos mais fracos, tendo-se em conta que nas épocas renascentista e barroca havia com certeza reflexões interessantes sobre este fenómeno, que poderiam enriquecer muito esta colectânea. Sente-se nomeadamente falta das reflexões de Leão Hebreu, cujos Diálogos de Amor são uma obra representativa nesta área de pensamento, tal como a de Ramón Llull, que falando sobre os conceitos do Amigo e do Amado, se serve do discurso trovadoresco para tocar no tema da espiritualidade e da proximidade que um fiel cristão procura com Deus.
Este conjunto de ensaios concentra-se apenas na abordagem do amor no Ocidente europeu, privando o leitor do prazer de conhecer alguns dos grandes vultos da literatura da Europa do Leste, tais como Dostoiévski e Vladimir Soloviov, por exemplo, que na sua obra se debruçaram também sobre esta temática. Parece estranho também não se dar uma única perspectiva dos autores da vertente cristã da filosofia europeia (quer que sejam teólogos como São João Clímaco ou simplesmente pensadores  e filósofos).
Acompanhada por um excelente prefácio feito por um dos maiores intelectuais portugueses, esta antologia reúne uma série bem escolhida de discursos e ensaios sobre o amor, tema universal, antigo e sempre novo simultaneamente. Estes ensaios são um verdadeiro desafio para os leitores (apaixonados ou não, conhecedores destes autores e das suas obras ou não) para reflectirem mais uma vez sobre o “fogo que arde sem se ver” e com o qual todos eles se poderão identificar e encontrar um pouco de evocações das suas próprias experiências e visões que terão acerca deste tema.