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miércoles, 8 de agosto de 2012

histórias de amor e de procura da identidade em "Sputnik, Meu Amor" de Haruki Mmurakami

Apesar de este romancista japonês ultimamente ser muito popular e traduzido no mundo inteiro, Sputnik, Meu Amor de Haruki Murakami não é uma história muito prometedora, talvez por ser a primeira obra conhecida do autor.
Antes de começar a narração, ao leitor é-lhe dada uma informação básica sobre  Sputnik I e Sputnik II, e sobre a cadela Laika, que parece ter sido sacrificada em nome da ciência. este texto inicial, que serve para recordar alguns factos básicos do domínio da cultura geral, guarda uma ligeira relação com o conteúdo do livro, apenas porque o nome do satelite artificial passa a ser a alcunha de uma das personagens. 
Ao longo da obra é apresentada a vida de Sumire, uma jovem de vinte e dois anos, que se apaixona por uma mulher desasséis anos mais velha e casada. Esta rapariga, no início desorganizada, esquecida, despistada, sem empregos sérios, sem objectivos na vida, a não ser o de se tornar numa romancista brilhante, tem apenas um amigo, o narrador da história, secretamente apaixonado por ela.
Quando conhece Miu, uma mulher coreana, empresária, independente e pelo que aparenta, o seu pólo oposto, mas que gosta de música clássica como ela, Sumire apaixona-se perdidamente, e essa obsessão será um dos fios condutores do romance. Com ela começa a trabalhar, a ter mais responsabilidades, a vestir-se bem, a falar italiano, a deixar de fumar e a viajar pela Europa, o que é um pormenor importante no desenvolvimento da intriga, uma vez que sputnik em russo significa "companheiro de viagem". Essa viagem poderia ser a tanto física, pelos distintos espaços da Europa, coomo a interior, para o mundo íntimo das pessoas que reflecte a sua busca da identidade, da felicidade e da realização pessoal.
No livro não fica claro se na sua frívola, mas devastadora paixão por uma mulher, Sumire procurava a imagem da mãe que perdeu cedo, uma figura que seria modelo para ela, o seu outro eu, a realização do seu ideal de mulher ou apenas um objecto de satisfacçãodo seu desejo sexual. Quando escreve sobre isso no documento 1 do seu computador, deseja que as duas penetrem no mais profundo uma da outra, o que poderia revelar mais uma procura de conhecimento e auto-conhecimento mútuo do que uma mera paixão carnal. Quando está com Miu, ela deixa de pensar e de escrever, sonha com a sua mãe que está morta e pretende alcançá-la no céu e não o consegue. Por outro lado, a história de Miu, que uma noite ficou fechada num parque de diversões e através dos seus binóculos viu a sua dupla ou sósia a ter relações sexuais com um homem que a assediava e que lhe metia medo, e por causa dessa visão ficou frígida e dividiu-se em duas mulheres diferentes separadas por um espelho imaginário, não é capaz de comover a ninguém e podia perfeitamente ser omitida no livro, embora se pretenda sublinhar que essa duplicidade entre este lado e o outro lado é um fio que une as duas personagens.
Mais interessante do que tudo isto parece ser a relação de amizade e cumplicidade entre Sumire e o narrador da história, a única pessoa que a compreende, que a ama, que está sempre ao lado dela, que a conhece profundamente, que é capaz de fazer tudo por ela, até de viajar subitamente desde o Japão até uma ilha grega perdida no mar perto da fronteira turca. A personagem do narrador está muito bem construída, porque revela a plena dedicação a tudo o que faz, ao seu trabalho de professor primário, às suas leituras e mais do que tudo à Sumire.  Enquanto todos o usam como instrumento de ajuda, ninguém se preocupa com os seus sentimentos e a sua solidão, que o onbriga a relações ocasionais com mulheres mais velhas e casadas, muitas delas mães dos seus alunos. Até nesse pormenor (de quererem estar com uma mulher mais velha e casada), Sumire e o seu amigo são semelhantes, mas por parte dela não se manifesta nenhum interesse no contacto físico com ele e por isso não pode haver uma relação amorosa com ele.
Quando o narrador reflecte acerca dos seus sentimentos por Sumire, pensa que Miu a ama, mas não a deseja, que a sua amada ama e deseja Miu e ele ama e deseja apenas a sua amiga o que torna as persoonagens deste livro em participantes de um previsível e frívolo triángulo amoroso, digno de telenovelas ou de um romance barato romance cor-de-rosa e não de uma obra que pretende ser considerada grande obra de arte.
Após o misterioso desaparecimento de Sumire e o seu regresso ainda mais misterioso, a história da sua procura, realização pessoal e a sua identidade ficou incompleta, confusa e inacabada. O pormenor de Miu voltar a ter o cabelo branco depois de ter voltado da Grécia, poderia significar uma forma de ela ter ultrapassado o trauma do passadp e de ter-se aceite tal como é, enqaunto o narrador da história, também voltou da sua viagem transformado, com um irreparável sentimento de perda.
Além de o romance estar repleto de temas pseudo-intelectuais como nomeadamente a diferença entre o signo e o símbolo, a importância dos sonhos e a referência de demasiadas peças e compositores de música clásssica, muitas vezes peca no estilo, usando muitas repetições e comparações quee se reduzem a clichês gastos. ("certo, certíssimo", "ter fome de lobo", "evaporar-se como o fumo", que se notam tanto no próorio autor, como na escrita de Sumire, que se pretende ser uma escritora extraordinária, não deveria escrever assim.
Sputnik, Meu Amor, com o seu título interessante e alguns dos temas que poderiam dar muito material para um excelente romance (o amor, a perseguição de um ideal, a procura da identidade e da realização pessoal), não deixa de ser um de muitos livros comerciais e superficiis, que exigem um grande esforço do leitor para não serem abandonados a meio da leitura.