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viernes, 12 de octubre de 2012

regresso aos clássicos portugueses: Alves Redol

ALVES REDOL (1962) Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Publicações Europa-América, Lisboa121 pp.
Na altura do seu aparecimento considerada a mais bela obra da literatura neo-realista infantil, hoje em dia pouco estudada e talvez um tanto esquecida, a história sobre Constantino é muito mais do que uma narrativa de um menino da região saloia ribatejana. Trata-se de uma história cheia de ternura, dedicação, devoção que o autor mostra ter pelas pessoas do povo e pelo processo de crescimento das crianças, a sua forma de descobrir o mundo, de integrar-se na comunidade à qual pertencem, de ligar-se às suas raízes e á natureza, procurando o seu caminho singular até à vida adulta.
 Inspirando-se na infância de um menino que conhecia, Constantino Cara-Linda, o autor escreve para todas as crianças portuguesas da mesma idade e estatuto social do protagonista, mostrando a beleza e a dureza da ida na aldeia, as aspirações, os desejos, as ânsias, as preocupações, os temores de um rapaz que deseja realizar o seu maior sonho: o de deixar de ser um simples guardador de vacas e de se tornar em serralheiro de navios.
Muitas vezes classificado como "romance de aprendizagem " ou de "formação", Constantino  Guardador de Vacas e de Sonhos é o romance por excelência que apoia o desenvolvimento correcto da personalidade de um rapaz que sabe perfeitamente o seu lugar dentro da hierarquia familiar, que respeita os adultos, mas que encontra uma forma pícara e engenhosa de lhes responder "jogando as palavras como pedras de uma atiradeira" (p.18). Este rapaz tem as suas brincadeiras com os meninos da sua idade, sendo o Manel o seu fiel camarada e companheiro das numerosas aventuras e processos de se tornar "um verdadeiro homem".
Pela escolha de um nome singular, que ninguém na família tem, que além disso é um "nome da cidade", O autor pretende salientar que este menino tem a possibilidade de ter um destino diferente e que a sua personagem merece uma atenção particular: chamado desde a infância de " cantigas" e "Cuco", alcunhas familiares do lado dos seus pais, gosta muito da natureza e sobretudo de pássaros, conhece tão bem as suas espécies que até se julga "grão senhor de cinquenta ninhos". As suas aspirações, porém, não se limitam ao mundo rural e fará tudo o que for ao seu alcance para realizar a sua ideia de ter um emprego relacionado com os barcos, tendo ela nascido no seu coração no dia em que o pai o levou a Lisboa pela primeira vez para ver os barcos e o rio Tejo.
Parecendo inicialmente teimoso, um pouco desobediente (quando faz de conta que não ouve a avó a chamar-lhe e pedir-lohe alguma tarefa), preocupado com o seu suposto defeito do nariz grande (sem ter entendido a expressão popular "ser o senhor do seu nariz), revoltando-se contra os mimos que a mãe dá à sua irmã mais nova Ana Maria, Constantino tem ainda muito de criança. Quando aos seus doze anos tem a sua primeira conversa "de homem para homem" com o pai, essa experiência resulta ser muito enriquecedora, uma vez que nela descobre que "um homem nunca chora, mesmo que veja as tripas doutro na mão" (p.29), que não deve invejar a sua irmã pelo carinho que lhe dão "por ser pequenita", que a mãe não o ama menos que a menina, que a avó é uma pessoa muito sábia, que a educação e a escola são importantes e que há que respeitar a sua Professora. É então que ele começa realmente a crescer, acordando muitas vezes à mesma hora que o pai para irem guardar as vacas e fazerem outras tarefas da aldeia, estudando a história e a geografia, embora não se deixando humilhar pela sua Professora e não mostrando medo das reguadas. No seu processo de crescimento, o protagonista descobre que deve ajudar a sua irmã pequena a crescer e por isso usa a sua imaginação para lhe contar histórias bonitas, sendo a do toiro azul capaz de voar  a que mais a marcou.
Nesta obra criticam-se alguns métodos disciplinares demasiado rígidos, fomenta-se a esperteza a e a aprendizagem por todas as vias (mediante a escolarização formal, com os familiares e amigos e pela experiência própria).  Constantino aprende também a responder de forma nem sempre muito gentil aos que pretendem magoá-lo ou ofender algum familiar seu, Desta forma, na sua réplica: "pois não, vossemecê nas caçadas só mata copos, e o meu pai mata coelhos e perdizes", pode vislumbrar-se o início de uma determinada rispidez e talvez de má educação, como também pode notar-se a plena consciência que o menino tem de alguns problemas que os adultos da sua comunidade enfrentam (a dependência do álcool e a mentira como vontade de apresentar a realidade mais bonita do que é).  Entre outros assuntos estreitamente ligados ao processo de crescimento e da aprendizagem que Alves Redol coloca perante o leitor encontra-se a necessidade de salientar a importãncia de uma educação correcta, do estímulo de boas relações familiares e tambémm se se deve falar sobre a morte, os crimes e outros problemas da vida real na presença das crianças.
No episódio sobre a amizade de um dia com um rapaz da cidade, o autor ensina que na vida existem também desilusões, amizades que não resistem a prova do tempo, mas também se põe de lado do mundo rural e da sabedoria do campo por oposição à uma certa corrupção e artificialidade da cidade, o que é um, tema que atravessa todo o neorealismo português.
Com Constantino aprende-se que tuddo o que nos acontece na vida tem a sua utilidade, que "a cadeia fez-se prós homens", que "o homem não se mede pelo tamanho, mas sim pela coragem e pelas obras" e que é preciso "conhecer terras mais distantes", quer no sentido literal, quer no figurado da expressão.
Ligado á sua terra, família e tradições, com os pés bem assentes na terra, mas com a cabeça cheia de sonhos  e o coração de ideais, Constantino é uma criança parecida com muitas outras, mas ao mesmo tempo peculiar, com todos os seus deefeitos (o orgulho, a teimosia, o desejo de não admitir o seu medo) e virtudes (a dedicação a tudo o que faz, o amor pela liberdade e independência, o cuidado para realizar o que deseja).
esta é sem dúvida, uma obra clássica da literatura portuguesa, que as crianças merecem conhecer e ler, para verem e avaliarem o valor do esforço, da renúncia e da aprendizagem, que as levarão a assumir responsabilidades e a tornarem-se adultas no verdadeiro e pleno sentido da palavra.