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jueves, 4 de octubre de 2012

O mundo kafkiano

KAFKA, Franz (2007), Meditações, Alma Azul, Coimbra, 43 pp.
Desde as reflexões sobre o mundo, a posição do indivíduo dentro dele, a procura do sentido da vida, até as ideias sobre o amor, a crença, a liberdade e o sofrimento, esta compilação das Meditações kafkianas apresenta-nos algumas das vertentes centrais do universo deste escritor, acrescentando sempre um toque de pessimismo e absurdo às suas ideias. Mesmo sendo judeu das origens e sem fé na prática da  sua vida, Franz Kafka revela-nos a sua visão bastante particular dos temas cristãos, nomeadamente a percepção da impaciência e da preguiça como dois pecados capitais. Mesmo que à primeira vista isto contrarie os dogmas cristãos, na perspectiva do escritor, a primeira característica é a causa da expulsão do homem do paraíso e a segunda da sua impossibilidade de regressar lá.
Nesta linha de pensamento, desenvolvem-se também as ideias sobre amar a si mesmo e amar o próximo "mesmo no íntimo", o que por sua vez pode coincidir com o pensamento cristão sobre este tema.
No livro a ser analisado manifesta-se também a necessidade da luta do indivíduo contra e com o mundo, do sofrimento, da conquista da liberdade, da ociosidade como "o único dos vícios e coroamento de todas as virtudes". Debruçando-se um pouco mais sobre este assunto, ver-se-á que aparentemente estas duas afirmações são paradoxais. Tendo em conta o ponto de partida sobre a preguiça (e talvez um determinado grau de indiferença) do homem como a principal razão da sua infelicidade e incapacidade de atingir o absoluto, a ociosidade é ao mesmo tempo um descanso merecido depois do sofrimento e da dor que fazem parte do dia-a-dia dos hoemns.
Nesta colectânea reflexiona-se sobre o Bem, que por vezes pode ser desolador, sobre a mortalidade e imortalidade do indivíduo, a sua impossibilidade de se sentir realizado completamente, refere-se também um estreita relação entre o celibato e o suicídio, sendo as duas formas apropriadas de se salientar a falta e a ausência da plenitude, que são motivos muito recorrentes na escrita de Kafka.
Extraídos do contexto original, estes fragmentos parecidos com aforismos abundam de sabedoria e pintam muito bem o universo literário, estético e filosófico deste autor, convidando o  leitor a conhecerem melhor a sua obra e os seus temas e modos de pensar, sentir e escrever.