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miércoles, 5 de septiembre de 2012

quando as identidades se tornam assassinas

MAALOUF, Amin, (2001), As Identidades Assassinas, DIFEL, Oeiras, 173 pp.
Com o título mais do que provocativo, e escrita por um libanês que vive em Paris desde 19796 e escreve as suas obras em francês, esta é uma excelente obra que fomenta a discussão identitária na Europa e no mundo pós-modernos. Partindo da pergunta que as pessoas que o rodeiam lhe fazem "se ele se sente mais libanês ou mais francês", que é uma daquelas questões aparentemente muito banais que se colocam apenas para a conversa não acabar, Amin Maalouf dá as suas reflexões interessantes sobre o problema da identidade. Na sua opinião a identidade "não se compartimenta, não se divide em metades" (p.10), é algo que não é inato e que se constrói ao longo da nossa existência, que faz com que cada indivíduo se distinga das outras pessoas e que tem muito a ver com símbolos, representações e aparências.
O que há que destacar na pergunta inicial é o verbo "sentir", isto é, a identidade não é feita apenas de factores "racionais" e explicáveis tais como a pertença a uma etnia, religião , um determinado grupo linguístico, uma família etc, mas também depende de uma série de opções que nós fazemos regendo-se pela nossa esfera emocional, por gostos, imagens, mitos, interesses e tudo aquilo que não cabe dentro do domínio da objectividade e da razão.
O autor explica a fluidez e a mutabilidade do conceito da identidade de acordo com as circunstâncias sociopolíticas e culturais, referindo o exemplo de um habitánte da Bósnia que durante o regime de Tito se iria declarar como jugoslavo, para durante a guerra dos anos 90 se assumir como muçulmano e hoje em dia salientar que é bósnio mas europeu, sublinhando a necessidade de o seu país pertencer à Europa, alargando finalmente as suas pertenças identitárias às raízes balcânicas.
Quando analisa a situação e o contexto na antiga Jugoslávia e nos Balcãs, nota-se que tem conhecimentos profundos sobre a matéria e que não escreve sem argumentos e seguindo as tendências que estavam em vigor na década em que a obra original foi publicada (final dos anos noventa).
Dividida em quatro partes "A minha identidade, as minhas pertenças", "Quando a modernidade vem do Outro", " O tempo das tribos planetárias" e "Como domesticar a pantera", esta colectânea de ensaios discute não apenas a identidade, como a visão do Outro (ao mesmo tempo como perigo e ameaça e como alguém que desperta interesse, curiosidade e desejo de o conhecermos), a globalização e a sua (in)evitabilidade no mundo moderno, e a tentativa de se reconciliarem estes conceitos "problemáticos" hoje em dia, para as identidades não se tornarem "assassinas". Esta característica da identidade começa a ser preocupante quando um dos seus elementos (étnico, cultural, linguístico ou religioso) é exagerado e sobrevalorizado, mas ainda assim, Maalouf nunca recomenda que se deve esquecer ou apagar a identidade enquanto tal, apenas deve reflectir-se sobre ela de uma forma mais adequada à sociedade contemporânea em que vivemos.
Com uma linguagem muito simples e acessível para os leitores de todos os níveis de escolarização e de todas as faixas etárias, com metáforas originais e ideias interessantes, As Identidades Assassinas não representa em absoluto uma leitura fácil e unívoca, oferecendo sempre múltiplos e novos sentidos e significados de interpretação e compreensão.