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miércoles, 12 de septiembre de 2012

Dor e riso por Anamarija Marinovic

Dor e riso
Belgrado
16 de Outubro de 2003

Meu caro diário,
Amanhã é o tal dia. Importantíssimo para mim. Não esperei muito, mas que importância é que isso tem agora ? Já está, ali á esquina, como se costuma dizer. Estou impaciente. E um pouco nervosa. Não é de estranhar. Claro, não é qualquer dia que se tem a quarta cirurgia dos dois olhos ... Sim, a quarta! QUARTA, Entendes??? Oh, meu Deus!!! Quando é que isto vai acabar? Amanhã, provavelmente...Ou… Calma, calma... Tenho de pensar positivo... Mas, sabes, meu caro diário, já estou um pouco cansada. Não, não é medo, nem preocupação o que estou a sentir agora, é, como é que hei-de dizer... é uma chatice. Sim, essa é a palavra adequada, chatice. De qualquer das maneiras, tem que ser. E o que tem que ser, tem muita força.
Já sei, já sei, nasci prematura, aos sete meses, porque a mamã estava doente. Não era nada grave, uma gripe apenas, mas uma simples gripe pode causar grandes problemas a uma mulher grávida. Não vou agora perguntar-me acerca da razão do meu nascimento prematuro: se foi porque o papá num momento não teve suficiente coragem ou palavras delicadas para não deixar entrar o vizinho engripado que queria ver o seu jogo de futebol na nossa televisão (na altura a única a cores no prédio todo), ou porque a mamã também fumava. Não sei, nem me interessa. Ninguém teve culpa. Nasci antes do prazo previsto e já está. Mas nasci e isso é o único importante, graças a Deus. Tal como se costuma fazer com os bebés demasiado curiosos por conhecerem a beleza deste admirável mundo, para eles absolutamente novo, colocaram-me na incubadora, puseram-me oxigénio a mais e por causa disso os meus músculos oculares enfraqueceram um bocadinho.
Foi então que apanhei aquela doença dos olhos a que na linguagem popular é conhecida como “os olhos vesgos”, mas que os médicos educadamente chamam estrabismo. Sim, ESTRABISMO, esta palavra comprida da origem grega foi o que durante muitos anos me assustava. E o que muitas vezes me parecia um palavrão feio e estranho ao meu ouvido. Cada vez que ouvia aquele conjunto de sons que não percebia, achava que tinha uma coisa horrorosa nos olhos, quando se tratava apenas de um pequeno problema com o funcionamento dos músculos... Uma imperfeição não muito grave, curável e perfeitamente corrigível. Isso tinha que ser operado. Quanto antes, melhor, porque mais tarde fica visível e feio e isso não é recomendável no caso de uma criança, sobretudo de uma menina. Era para ser uma vez, mas, as coisas complicaram-se, não te quero maçar agora com isso, meu caro diário. Não interessa.
Das primeiras duas operações nem me lembro, porque na altura era bebé, a paciente mais nova na carreira do médico que me vai operar amanhã. Foram os pais que me contaram tudo. A terceira, a de há dois anos, foi um horror: a anestesia geral, as dores insuportáveis, uma enorme vontade de coçar os olhos, as náuseas depois de acordar, um sentimento de extrema fraqueza... Valha me Deus! E amanhã outra vez a passar por isso... Nem quero pensar... Mas o médico é um excelente especialista, uma pessoa muito simpática, sempre faz brincadeiras e gostamos muito um do outro. Aliás, trata-me como se fosse a sua filha mais nova, ou até a sua primeira neta...
Há de correr tudo bem! E depois, aquele rapaz tão belo, meu colega da universidade, de quem toda a gente diz que ficaria bem ao meu lado, pode começar a ver-me com outros olhos... Vamos ver. Na verdade, não tenho de que preocupar-me. Além disso, amanhã é um dia santo: o Santo Estêvão, déspota sérvio que ficou cego, e que, segundo a crença popular, ajuda os doentes dos olhos. Ele não me vai abandonar. O meu Anjo da Guarda também não. Mas, agora, toca a dormir e descansar, preparando-me para o grande dia… Em breve, meu caro diário, escrevo-te novamente…

Depois de ter terminado esta página fiz a sinal da cruz, disse: “Que Deus e Santo Estêvão Štiljanović da Sérvia me acudam” e adormeci que nem um anjo.
Chegou o tal dia: Lembro-me de ter entrado no hospital, uma bela e agradável clínica, daquelas modernas e privadas, cheias de fotos bonitas, juramento de Hipócrates e plantas grandes no rês-do-chão O meu médico, vestido de verde mais me parecia um ursinho fofinho de peluche que aquele montenegrino alto e corpulento que por vezes aparecia na televisão a falar sempre de doenças, das actividades políticas do seu partido e de coisas graves e muito, muito sérias. Os seus olhos azuis, suaves e cheios de carinho inspiravam-me confiança. Como se me estivessem a dizer: “Estará tudo em ordem, garanto-te! Força, minha menina, não tenhas medo.”
Lembro-me de ter acordado da anestesia e de ouvir o meu médico dizer: “Minha campeã, foste valente! Conseguimos! Senti que o meu pai, que então estava ao meu lado, me afagava a mão, controlando-se para não chorar. Agradeço a Deus e a São Estevão da  Sérvia. E ao meu médico que não escolheu esta data por acaso... Não era uma coincidência de certeza, ele é um senhor muito religioso, que conhece o calendário da Igreja para frente e para trás e até nasceu no dia do Natal ortodoxo...
Hoje, já passados alguns anos daquela experiência, muitas das coisas dão-me vontade de rir: Sim, outra vez passei pela anestesia geral, tive dores insuportáveis e uma enorme vontade de coçar os olhos, as náuseas depois de acordar e um sentimento de  extrema fraqueza, mas também tive ao mesmo tempo muita força Correu tudo bem. Aquele rapaz tão belo que na altura era meu colega da universidade e de quem toda a gente dizia que ficaria bem ao meu lado, não me prestou muita atenção, pelo menos não no sentido em que todos os colegas da turma murmuravam, mas , já não me preocupo com isso. Hoje ele e eu somos os melhores amigos., e o que os outros digam ou deixem de dizer, não nos toca em absoluto. Porém, neste mundo há uma outra pessoa, não interessa quem, nem o penso revelar, que me faz dormir bem e sonhar melhor. Esse sentimento tão forte e profundo, sincero, silencioso e misterioso dá aos meus lhos um brilho muito especial, pelo qual uma vez ele me tinha dito que estava muito bonita. Não sei se tem razão, mas uma coisa sei com certeza absoluta: agora os meus olhos estão completamente bem. Graças a Deus e a Santo Estêvão Štiljanović da Sérvia. E ao meu médico, aquele montenegrino alto e corpulento, que por vezes aparece na televisão a falar sempre de doenças, das actividades políticas do seu partido e coisas graves e muito, muito sérias, mas que, apesar disso não deixa de ser o meu ursinho fofinho de peluche...