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sábado, 17 de mayo de 2014

A LÓGICA DOS CORAIS de Paulo Pego, resenha

Bem-vindos ao meu mundo de imaginação. literatura, cinema, fotografia, tradução de poesia e conheçam contos da minha autoria
PEGO, Paulo (2013), A Lógica dos Corais, Orfeu, Bruxelas, 79.pp
Experimentar com palavras, viajar por espaços e tempos, reflectir a posição do indivíduo no mundo (a preocupação do homem contemporâneo, sufocado na rotina e na banalidade do quotidiano à procura de um sentido da vida: Deus? Amor? Relações Interpessoais?), (re)pensar o processo da criação literária, e sobretudo poética, combinar as cores das imagens que impregnam os seus versos com a interessante parte gráfica (posição, tamanho e forma das letras) caracterizam a poesia de Paulo Pego, que de forma alguma pode ser de uma leitura fácil ou unívoca. Estes poemas, verso após verso e página após página convidam o leitor a reflectir, a conquistar as ideias e expressões, à primeira vista talvez herméticas ou inacessíveis, para, após um olhar mais profundo, se tornarem mais próximos e familiares, mais legíveis e mais interiorizáveis, mais fáceis e compreensíveis, mais em conformidade com a sensibilidade e personalidade do autor.
Começando pela análise da imagem da capa, um desenho bastante original a carvão e lápis de cor, realizado por Maria Leal da Costa, nota-se a luta da vida, representada numa folha que se movimenta, saindo de um vazo cinzento e neutro, observado por uma lâmpada (evocando elementos do escritório em que o homem moderno passa a maior parte do dia-a-dia) contra a  monotonia do absurdo quotidiano.
Uma colectânea em que pairam as aparições, as recordações, os pequenos relâmpagos e cortes de um livro de viagens, alternando-se com as imagens do homem perdido, os seus temores do envelhecimento, da incomunicação, do isolamento. A Poesia de Paulo Pego dialoga com autores (Pessoa, Carlos Drumond de Andrade Dulce Maria Cardoso,  talvez até certo ponto com Gonçalo M. Tavares e Jorge Luis Borges), inspirando se em textos conhecidos, recriando-os e relembrando constantemente a inquietação do poeta por encontrar e afirmar a sua própria voz e expressão lírica, sem cair, porém, em estereótipos e lugares comuns…
Lugares… reais e ficcionais, sonhados e imaginados, visitados e revisitados: Sicília, Siracusa, Lisboa, os seus miradouros, cafés, restaurantes, carros de gelados, balcões, Sintra, São Petersburgo, Bruxelas, Viena, Dubrovnik, Turquia, Índia, cidades sem nome (apenas numeradas), Barcelos (referência às raízes e à identidade, “Eu Árvore”, sendo porém essa árvore “sempre inclinada para Esteiro)… Lugares utópicos, heterotópicos e distópicos simbolizam a procura, o desejo simultâneo de continuar a fluir como o rio, a tremer como os nervos, a ser um eterno peregrino, e de  uma necessidade de encontrar um ponto, uma pedra, um sítio estável e seguro.
Desde o próprio título, a cor vermelha domina através dos corais, vinho, paixão, explosão de napalm,  prazer,  sangue,   as feridas operadas sem anestesia, granadas, paletas,  fósforos, queimar, rubor, amor, calor, carne, romã, paisagens indianas, boca, sexo, cerejas. Entre outras cores mencionam-se apenas esporadicamente o verde, o branco, o azul, o negro e o cinza, mostrando, desta forma a vitalidade dos poemas e a força irresistível com que o poeta se opõe à monotonia da burocracia, ao sufoco das regras absurdas, isolamento, cânones incompreensíveis.
Questionando as regras, o poeta parece revoltar-se contra a ortografia em vigor, colocando partes de palavras entre parêntesis, pondo um ponto no meio da palavra (semi.tudo) ou no início da frase (.namorados), desrespeitando as maiúsculas e minúsculas, os signos de pontuação e por vezes a ordem das palavras, o poeta parece advogar a liberdade de expressão e a independência da palavra poética em relação às outras criações literárias. Com um vocabulário elaborado, um trabalho linguístico precioso, um estilo peculiar, o poeta provavelmente pretende não apenas pôr de manifesto a riqueza e variedade da língua portuguesa, como também deseja apurar e refinar o gosto do leitor pelo sofisticado e pelo sublime. Mesmo falando em sucatas, em assuntos banais como as bolachas que de devem vender em determinado tipo de lojas, em caixas de correio, carros de gelado, sente-se neste livro uma aspiração ao superior, ao absoluto, ao celestial. Mesmo num mundo cada vez mais globalizado, isolado, em que as pessoas se cruzam, ninguém se cumprimenta, as relações interpessoais são frouxas e superficiais, existe sempre uma esperança no Natal, nas águas baptismais, no crisma e num deus (curiosamente escrito com minúscula), que dá um sentido mais alto à vida humana.
Entre a arte comprometida e a poesia pela poesia, A Lógica dos Corais parece reivindicar a urgência da beleza da vida, expressa nas viagens e na criação e a necessidade do amor como sentido do percurso humano.