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martes, 11 de junio de 2013

resenha de "Antes da Meia-noite"

BEM-VINDOS AO APAIXONANTE MUNDO DE LETRAS PRECIOSAS E IMAGENS ENCANTADORAS, SEJAM LEITORES, OBSERVADORES, CRÍTICOS E PALAVRÓFILOS, LEIAM, LEIAM, LEIAM. MESMO QUE UM PROVÉRBIO POPULAR SÉRVIO DIGA QUE "A CABEÇA É MAIS VELHA QUE O LIVRO", ISTO É QUE O PENSAMENTO É MAIS ANTIGO QUE A ESCRITA, LEIAM, ISSO AGUÇA O ESPÍRITO, ENRIQUECE O VOCABULÁRIO E A ALMA, DESPERTA A CURIOSIDADE E FAZ VOS PALAVRÓFILOS CURIOSOS TAMBÉM...

Filme: Antes da Meia-Noite

Género: Drama

Duração: 108 min.

Realização: Richard Linklater

Com: Ethan Hawke, Julie Deply, Athina Rachel Tsangari, Yota Argyropolou


Na Peloponésia do Sul, numa recôndita vila de praia Jessie, um escritor prestigiado e Celine, uma francesa que procura um emprego que a deixe profissionalmente realizada, passam férias com as suas duas filhas gémeas e com Hank, filho adolescente do primeiro casamento de Jessie. Num ambiente romântico impregnado de cheiros e sabores mediterrânicos, que seria ideal para os encontros românticos e o reforço do amor, o casal não para de discutir, sufocado pela realidade quotidiana. Ele, depois de ter-se despedido do seu filho, que vive com a mãe em Chicago, de repente sente a necessidade de ser um bom pai, de ganhar a sua confiança, de vê-lo crescer e de o acompanhar nos seus momentos importantes. Ela, preocupada com a energia eólica, o ambiente, o feminismo e tudo menos as suas duas filhas e o namorado, deseja desenvolver-se profissionalmente, mostrando que é muito mais que uma mulher submissa e obediente. Conversando com os habitantes da vila, os seus anfitriões, Ariadne e Stefanos, o pai de Stefanos, escritor idoso e viúvo que amou muito a sua esposa, com um casal jovem e com muitas pessoas que passam estas semanas com eles, começam a interrogar-se sobre o amor, a possibilidade de se amar uma vez só, se a ideia de encontrar a alma gémea é um mito ou não, ouvem outras variantes sobre o que o amor é: a protecção, o relembrar constante dos pequenos detalhes do rosto amado, a confiança, o perdão, a companhia. Nestes momentos eles próprios começam a reconstruir o seu passado, recordando situações que os tinham aproximado (uma conversa durante a viagem de combio que os dois fizeram a Paris, as razões de se sentirem atraídos um pelo outro, como é que nasceram as suas filhas, como a vida é marcada por cada acontecimento importante desde o nascimento das meninas) etc. Nesta conversa há sempre um pouco de ironia e de intenção de Celine a mostrar-se superior ao namorado (imitando a “loura estúpida” que supostamente ele sempre desejava ter ao seu lado, revelando que as suas filhas eram fruto da primeira noite em que eles não tinham usado os preservativos, a intenção de diminuir o valor dos seus livros).

Quando finalmente conseguem estar um pouco os dois sós, sem o barulho das filhas e a demasiada atenção dos outros, tudo parece indicar que vão encontrar alguma força que os una novamente, até começarem a culpar um o outro pelos erros do seu passado (o casamento falhado de Jessie e a sua decisão de sair de Chicago, deixar o filho e ir a Paris, a impossibilidade de Celine de perseguir a sua carreira, as recriminações que ela lhe faz por tudo: pelos cuidados excessivos que ela dedica à casa, ao filho dele, ás gémeas, o facto de não ter sido consultada nem sequer sobre o destino das férias, o facto de ele a deixar sempre sozinha quando vai a outras cidades a leccionar nas universidades. Tudo, até a ideia de ter feito uma salada grega para ele “para ele a comer como um porco”, a forma em que ele faz amor é um motivo de desagrado, Para ele, o motivo das discussões e dos ciúmes são as numerosas aventuras que Celine tinha tido antes e durante a sua relação. Nessa conversa surgem também questões banais como o envelhecimento, se o rabo dela vai ter o mesmo aspecto físico quando tiver oitenta anos, o que é que os vai manter juntos depois de tantos anos. Pela forma do que é que os dois vêem nas brigas diárias das filhas (ele vê uma razão desnecessária de exprimir a raiva e agredir os outros e ela vê a forma de se obter aquilo que se deseja) e como as educam, é mais do que evidente que eles são pessoas fundamentalmente diferentes. Se a mãe ensina as filhas que a maçã que uma delas não conseguiu terminar e que o pai comeu significa egoísmo e roubar a comida aos outros, enquanto o pai pretende transmitir os valores como a partilha e a preocupação pelos outros, estas duas personagens não chegariam a viver juntos pelo resto da vida. Ele é um sonhador, bondoso, que está disposto a investir no amor que tem, aceitando a pessoa que o faz feliz com todos os seus defeitos, ela faz os possíveis para o mudar, desprezar tudo o que ele faz, tentando mostrar-lhe que é melhor e superior em todos os segmentos da vida.

No final do filme o casal reencontra-se numa bela esplanada e consegue reconciliar-se porque uma imaginária “carta do futuro” que Jessie escreveu á sua mada, prometendo-lhe uma noite inesquecível e intensa da paixão.

Este filme pretende ridiculizar todos os mitos de amor, o casamento, a fidelidade, o realismo na percepção dos outros, a compreensão, a busca dos sonhos, o apoio mútuo, banalizando até uma relação sexual até ao ponto de um instinto animalesco. O papel da mulher é visto de uma forma retorcida, apenas como a devoradora de homens que deve perseguir a sua carreira, não sabendo sequer como acalmar as suas filhas quando choram e querem dormir. Qualquer pensamento ao casamento é-lhe repugnante até ao ponto de fazer piadas de mau gosto no meio de uma milenária capela bizantina, de mentir às suas filhas que é casada, para “não arruinar o seu sonho de contos de fadas”, diminui o valor de todas as célebres mulheres que fizeram grandes logros na vida, ou porque já tinham cinquenta anos, ou porque lutaram pela fé. É desvalorizada até Juana de Arco, apenas por ter morrido virgem é aprova-se a atitude de Celine de ir acompanhar um antigo namorado no seu momento de luto e de ter uma aventura com ele.

Embora tenha um final que promete a felicidade e uma longa vida deste casal na felicidade e no amor mútuo, este filme parece um entre muitos com esta temática.

 A mãe de Hank, é pouco mencionada no filme e a sua personagem devia ter sido mais aprofundada, porque apenas o que se sabe dela é a versão de Celine, que a vê como “frustrada e alcoólica”) e as poucas frases que Hank pronuncia no início do filme (que ela iria odiar Jessie se aparecesse no recital de piano do filho). Seria interessante vê-la aparecer pelo menos numa situação, para poder-se verificar até que ponto ela é realmente tão envenenada pelo ódio, ou essa é a imagem que a sua rival pretende incutir ao seu filho.

Umas magníficas imagens da Grécia que são justamente o que dá um toque romântico e misterioso a este filme e a boa actuação de Ethan Hawke são os poucos pontos fortes desta obra, que apesar de tudo vale a pena ver, porque transmite a mensagem de que é necessário conhecer-se a si mesmo e lutar pelo amor.