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viernes, 19 de septiembre de 2014

Os Maias resenha do filme

Bem-vindos ao meu mundo de imaginação. literatura, cinema, fotografia, tradução de poesia e conheçam contos da minha autoria
Filme: Os Maias
Género: Drama (Adaptação do romance homónimo de Eça de Queiroz)
Duração:139 min.
Realização: João Botelho
Graciano DiasCarlos da Maia
Maria FlorMaria Eduarda
João PerryAfonso da Maia
Pedro InêsJoão da Ega
Hugo Mestre AmaroDâmaso Salcede
Maria João PinhoCondessa de Gouvarinho
Adriano LuzConde de Gouvarinho
Filipe VargasManuel Vilaça
Marcello UrgegheCraft
Pedro LacerdaTomás de Alencar
Rita BlancoD. Maria da Cunha
José Manuel MendesSr. Guimarães
André GonçalvesCastro Gomes
José NetoCaetano da Maia

Cinema: Cinema City Classic Alvalade
Adaptar uma obra literária ao cinema, nunca é uma tarefa fácil. sobretudo quando se trata de um clássico e mais ainda de um romance obrigatório nas escolas secundárias. Este trabalho sempre oscile entre a possibilidade de ser uma cópia fiel do livro original, uma interpretação demasiado livre ou uma adaptação demasiado escolar e sem vida própria. Sem dúvida alguma, João Botelho conseguiu magistralmente escapar a estes três problemas ao recriar a crónica de três gerações da família Maia numa Lisboa oitocentista e provinciana, a sua decadência inserida nas turbulências da sociedade portuguesa da época. Muito mais do que um mero retrato de uma sociedade sufocada pelo conformismo, ócio e luxo da pequena burguesia e muito mais do que a análise e exposição de uma relação incestosa entre irmãos, Os Maias são uma obra de arte sempre actual, podendo referir-se também ao Portugal contemporâneo, aparentemente com a mesma crise (económica e ética, artística e literária).
Em teros de elementos visuais, imagens, fotografias, vestuário, pormenores dos interiores e casas lisboetas, este filme pode comparar-se aos grandes clássicos americanos ou de outros países europeus. Em relação aos cenários exteriores, embora  a opção pelas telas e pinturas se possa interpretar como uma limitação de carácter orçamental,  antes parece  que se pretendia transmitir a ideia da vida como um teatro e da arte como um fingimento, em que todos podem ser interpretados como actores e tudo como máscara, fachada  ou fuga de uma realidade insatisfactória. As partes a preto e branco são uma excelente escolha para a narrativa inicial e para a introdução das personagens principais,  tal como a mudança de cenários de diferentes cidades em que se amaram Pedro da Maia e "a bele negreira Maria". O que parece demasiado rápido e brusco é a transição de uma geração para outra. A substituição do preto e branco do passado pelas cores da actualidade da narrativa é uma boa solução, embora possa ser usada noutros filmes e séries em que há diferentes níveis temporais. Graciano Dias foi uma excelente escolha para a personagem de Carlos da Maia, enquanto não se possa dizer exactamente o mesmo de Maria Flor como Maria Eduarda. (Está bem que a actriz brasileira possa reprodusir com uma maior precisão as variações de sotaques de quem viveu no Brasil e regressou para Portugal, mas para uma personagem com uma situação familiar difícil e um passado amoroso pouco exemplar, dada a necessidade de criar a filha, esta actriz parece  transmitir a ideia de uma mulher demasiado inexpressiva, submissa e doce). Pedro Inês, na sua actuação como João da Ega por momentos é demasiado teatral e exagerado (o que corresponde ao papel de manipulador, escritor que se ufana por causa das suas obras "inacabadas", sendo uma espécie de alter ego do próprio autor), e outras vezes toda a sua força expressiva parece desaparecer bruscamente e apagar-se numa aparente neutralidade. Para a personagem de Afonso da Maia, a mais bem construída e desempenhada em todo o filme, João Perry é a melhor opção possível, tal como o é Rita Blanco para o papel de uma fútil e superficial representante da alta sociedade. Algumas personagens, como nomeadamente Eusebiozinho, importante no livro, mereceriam mais atenção, tal como o gato Reverendo Bonifácio, que na obra literária é muito mais do que um animal de estimação.
Sendo este filme subtitulado como "Cenas de vida romântica", os episódios mais interessantes e impactantes do livro parecem ocupar o seu devido lugar na versão cinematográfica.
O final, talvez um tanto brusco, aparenta neutralizar todo o drama interior humano de Carlos e Maria e parece neutralizar um pouco a realidadde sociocultural portuguesa do fim do século XIX.
Não obstante, trata-se de um excelente filme, que cativa a atenção e não deixa os espectadores indiferentes e que certamente convida não apenas o público escolar a assistir. É um convite sempre aberto para a reflexão sobre os problemas éticos, sociais e individuais sempre actuais, tal como a condição humana com todos os seus defeitos e virtudes.